sábado, 16 de janeiro de 2010

The Road




2009
Drama
111 minutos
John Hillcoat (realização)
Joe Penhall (guião)

"I told the boy when you dream about bad things happening, it means you're still fighting and you're still alive. It's when you start to dream about good things that you should start to worry."

The Man


Em 2007 No Country for Old Men foi adaptado ao cinema pelos irmãos Coen, agora chegou a vez de outra obra de Cormac MacCarthy chegar ao grande ecrã. The Road conta a história de um pai (Viggo Mortensen) e um filho (Kodi Smit-McPhee) que atravessam os Estados Unidos da América em direcção a sul, num cenário pós-apocalíptico de destruição, onde a vegetação e os animais deixaram de existir.
John Hillcoat que já tinha realizado em 2005 o muito bom The Proposition foi o escolhido para encabeçar este projecto, que tinha tudo para dar errado. Uma adaptação de um romance de um autor ultra premiado, um elenco diminuto, um plot algo visto, além de um orçamento avultado. Contudo o resultado final é deveras impressionante!
Hillcoat recorreu a Nick Cave para uma banda sonora distinta, a momentos quase imperceptível mas convincentemente pujante para acompanhar o tom do filme, onde Viggo Mortensen volta a ser brilhante, sendo visível as transformações físicas a que se sujeitou, assim como as marcas psicológicas que um pai abandonado sofre, numa jornada em busca do nada.
Numa altura em que o cinema vive de muito de artifício, esta é uma história simples de humanidade e de persistência, onde a personagem do pai procura tornar o filho capaz de se desenvencilhar sozinho, pois sabe que não poderá estar sempre lá para ele. O ambiente de desolação, os escombros da sociedade transformados em ruínas da sobrevivência, o canibalismo como forma cruel de subsistir, assim como a impossibilidade da criação de laços com um simples estranho, parecem marcas distantes, mas são características presentes em muitas sociedades. O velho que pai e filho encontram pelo caminho, surge como um animal a quem não há possibilidade de existir uma ligação concreta. O filho comenta mesmo que ao se tentar evitar tanto as pessoas más, quando se deparam com pessoas boas, não conseguem já dar-lhes o devido valor.
Tenho de revelar que o final do filme ainda me assombra, permitindo-se a muitas leituras. A personagem Guy Pearce apresenta as mesmas marcas físicas que o ladrão com que pai e filho se cruzaram; o cão aparece na cena do bunker, pelo menos o miúdo julga tratar-se de um cão; o outro miúdo foi tratado como uma alucinação; sendo que a mulher diz que andavam a seguir o Pai e o filho, algo que o Pai se mostrava obcecado com todas as personagens com que se cruzou; representando a família a própria família desejada pelo filho Poderá o final ser um produto do imaginário, uma resposta idílica ao mundo cinzento onde o filho subsiste? Parece-me uma boa hipótese, mas esse cenário estaria sempre intimamente ligado à última bala existente na pistola, seria o desenrolar de um final feliz por consequência de um final trágico.
A viagem para sul nada mais é que a recusa em se acomodarem, em aceitarem uma vida sem propósito, mesmo que essa viagem seja feita de pequenas etapas, onde a fé nas pessoas boas se dissipa a cada viragem. O pai refere-se a si e ao filho como os portadores do fogo, as pessoas boas. Sim, nós somos o portador do fogo, somos nós que iluminamos o mundo, assim o queiramos.

Invictus




2009
Drama/Biopic
133 minutos
Clint Eastwood (realização)
Anthony Peckham (guião)


“I was thinking how a man could spend thirty years in prison, and come out and forgive the men who did it to him...”

François Pienaar

O realizador Clint Eastwood parece estar num processo criativo imparável, apresentando filme a seguir a filme, cada um a merecer reconhecimento pela qualidade cinematográfica. Eastwood é exímio no desenvolvimento da narrativa, apresentando histórias/temas aliciantes, pontuados com personagens riquíssimas onde as camadas de leitura se multiplicam em factores múltiplos, sem nunca perder a magia do simples storytelling.
Em Invictus, o realizador americano apresenta os acontecimentos que antecederam o mundial de rugby de 1995 que decorreu numa África do Sul em processo de recuperação de anos de Apartheid, que faziam da agora rainbow nation, uma sociedade amplamente divida, onde o desporto dos brancos, nenhum interesse tinha para os negros. O rugby surge aqui como o mecanismo que Mandela utiliza para fazer a aproximação de um povo, um desporto onde a luta e o combate têm um papel importante, mas onde a solidariedade e o espírito de sacrifício são preponderantes, ícones que o recém eleito presidente viu como essenciais para unir a nação a uma só voz. Olhando friamente, poderemos interpretar como uma manobra política feliz, que resultou não só como um golpe publicitário de elevado feedback, mas como a perfeita orquestração no necessário rumo para a reconstrução da África do Sul.
O filme centra-se, obviamente em Mandela, desempenhando brilhantemente por um Morgan Freeman ainda cheio de vitalidade, e no capitão da selecção sul-africana, François Pienaar (Matt Damon). O papel que os dois homens desempenharam, acaba por ser tratado como uma metáfora para todo o país que aprendeu a perdoar e a procurar algo mais. Com recurso a pouco background histórico, o filme fornece-nos material suficiente para conseguirmos perceber o passado de Mandela, a sua luta e a origem de toda a sua determinação em procurar algo melhor para todos. No entanto, é notório que Eastwood pecou em determinados momentos, as cenas/planos repetidas em diversas fases do filme salta à vista, nomeadamente nas cenas de jogo. Bem sei que o rugby não é o mais importante do filme, mas é sem dúvida o que está no substrato de toda a acção, demonstrando mesmo alguma falta de respeito, pois parece que foram filmadas/editadas muito à pressa.
No geral, Eastwood consegue mais uma obra que deixará os seus seguidores satisfeitos, embora pareça em tudo uma obra muito direccionada para os prémios da academia.