quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Anvil! The Story of Anvil



2008
Documentário
90 minutos
Sacha Gervasi


"Family's important shit, man."

Steve 'Lips' Kudlow

Quem são Steve’Lips’ Kudlow e Rob Reiner? Dois jovens do Canadá que decidiram formar uma banda quando tinham catorze anos, acalentando o sonho de serem Rock Stars de valor. Hoje em dia estão ambos na casa dos 50 anos, e o sonho continua a ser o mesmo.
Lips e Reiner são os membros fundadores da banda de metal Anvil, uma banda que alcançou algum sucesso no início dos anos 80, com temas como Metal on Metal e 666, contudo, eclipsou-se, deixou de dar sinais de vida, sem nunca ter chegado a morrer.
Sacha Gervasi foi roadie da banda enquanto adolescente, tendo sido o responsável pela realização deste documentário onde todos os ingredientes de uma grande obra cinematográfica estão presentes. Há drama, acção, comédia, nonsense, sentimentos à flor da pele, road trips e muito amor.
O filme acompanha os dois elementos originais dos Anvil na sua tentativa de conseguirem cumprir o sonho de estarem no rock para sempre, ao mesmo tempo que tentam gravar, produzir e editar o seu 13º (!!) álbum. Há alguns piscar de olho cúmplices para o filme This Is Spinal Tap (1984) de Rob Reiner (nada em comum com o membro da banda), levando mesmo em alguns casos a olharem para os Anvil como os verdadeiros Spinal Tap. O filme de Gervasi acaba por não ser tanto sobre o rock, o metal ou os próprios Anvil, centrando-se mais nas relações humanas, nos sonhos e no que é realmente o sentimento de família. Lips e Reiner são mais que amigos, são irmãos que necessitam um do outro para conseguirem forças para prosseguirem, sem se corromperem, a si próprios, nem à sua visão dos seus objectivos. De concertos sem público, passando por totalmente imprópria, até ao momento do concerto final, Anvil levam-nos numa viagem alucinante do querer e da força de abnegação que dois homens de meia-idade demonstram, perante uma sociedade que quase os esqueceu.
Os comentários iniciais de gente como Slash, Lars Ulrich e Lemmy, demonstram bem o papel que os Anvil desempenharam, e que sem se perceber bem porquê, se eclipsou. Com Anvil! The Story of Envil, renasce um mito, uma nova legião de fãs e o reconhecimento tão aguardado (vão estar em tour com os AC/DC).
É o realizar de um sonho que vemos desenrolar durante 90 minutos em frente aos nossos olhos, um sonho simples, em que dois jovens tentaram sempre e acabaram por conseguir aquilo que todos procuramos, apenas… a felicidade.

My Kid Could Paint That




2007
Documentário
82 minutos
Amir Bar-Lev

Pegando na eterna dúvida de o que é arte, e como esta nasce, o realizador Amir Bar-Lev acompanhou o dia-a-dia de Marla Olmstead, uma criança de quatro anos que de repente virou o centro das atenções do mundo artístico.
Os quadros de Marla foram mesmo comparados a artistas como Picasso e Pollock, obras de um sublime engenho, que em tudo parecem não se adequar a tão tenra idade. Amir inicia o seu documentário como um adepto fervoroso da pequena iluminada, mas à medida que os minutos vão passando a inquietação e a dúvida no que diz respeito à autenticidade das obras começa a ser uma constante. O documentário é exímio em tentar ser o mais imparcial possível, trazendo todas as pistas, hipóteses e cenários para a mesa, deixando todas as cogitações e ilações inerentes a cargo do espectador. Aliás, é por demais evidente a luta interna de Amir, entre as suas primeiras intenções e as dúvidas que se vão apossando das suas convicções.
O que é certo é que Marla ainda não foi nunca desmentida, para todos os efeitos todas as obras são da sua autoria, continuando a vender à escala das dezenas de milhares de dólares. Durante o filme, Marla é vista a pintar dois quadros completos de princípio ao fim, sem grandes interrupções e sem ajudas. Por algum motivo, esses dois quadros são as suas obras mais fracas, coincidência? Talvez, mas talvez não, e é aí que somos apanhados, num turbilhão de dúvidas e injustiças praticadas para com os intervenientes (Marla, pais, família, galerista).


O quadro Burning Blue Ball.

É certo que todos já vimos quadros que parecem ter saído de uma qualquer aula de E.V.T. de uma turma do 5º ano, contudo tem de se ter em conta que a pequena Marla Olmstead ainda nem idade para andar na primeira classe tem. O filme encerra numa nova exposição de Marla, agora já com seis anos, mas ainda em toda a sua plenitude, não uma artista, mas uma simples criança.
Serão os quadros mesmo da sua autoria? Há dias em que é fácil acreditar que sim.


A pequena Marla.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Pur week-end




2007
Comédia
90 minutos
Olivier Doran (realização)
Philippe Lefebvre (guião)

“Ceci n’est pas une week-end a Disneyland!”
Fred

Não conhecia, nunca tinha ouvido falar, nem tinha grande interesse em ver o filme, contudo vi-o na mesma. Estava a começar num dos Tvcines da tv cabo, tendo-me chamado a atenção pela sinopse e pela música que passava, uma boa música americana utilizada sem problemas num filme francês.
O filme de Doran centra-se totalmente num grupo heterogéneo de personagens, que se juntam há 20 anos sempre pela mesma altura. Eram jovens que viajam para uma colónia de férias, orientados pelos dois adultos responsáveis, Fred (Kad Merad) e Véro (Valérie Benguigui). Uma das viagens foi marcada por um acidente, o que os aproximou de forma singular, não evitando as diferenças, inevitáveis, entre ambos com o decorrer do tempo. David (Arnaud Henriet) que se encontra preso, sai em precária para poder estar com os amigos, os amigos só não sabem que ele aproveitou a precária, para fugir da prisão; tendo um perigoso criminoso fugido ao mesmo tempo.
As peripécias vão-se sucedendo à medida que o grupo, enquanto grupo, toma as mais variadas e incorrectas decisões. A polícia persegue-os, o perigoso criminoso encontra-os e as memórias relembram-se. O filme vai sendo pontuado com flashbacks da viagem acidentada, mas essas recordações nunca ajudam a clarificar e a conhecer melhor as personagens, o que é pena. Apenas aparecem como forma de se perceber que o que os liga não é só a viagem, mas o caminho até aos seus destinos.
Nota muito positiva para a banda-sonora, muito rica e eclética, acompanhando os diversos momentos da acção da melhor maneira, isto é, ajudando no setting da atmosfera e do ambiente, sem nunca o atropelar. Também os cenários são deslumbrantes, desde a floresta, às altas montanhas, às encostas escarpadas e aos riachos gelados, os diferentes cenários são uma grande (senão a maior) mais-valia.
Enquanto comédia há momentos de puro gozo e divertimento, mas nunca se chega a perceber qual a real intenção, já que este caricato road movie tinha tudo para ser repleto de momentos e diálogos hilariantes, mas nunca chega a passar disso mesmo, de momentos pontuais, ficando o espectador sem perceber realmente se é assumidamente uma comédia ou não.
É o primeiro filme francês a entrar no aminhacinefilia e de certeza não será o último.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Cruel Intentions



1999
Drama
97 minutos
Roger Kumble (realização e guião)


"I'm sick of sleeping with these insipid Manhattan debutantes. Nothing shocks them anymore."

Sebastian

Custa imaginar que o filme de Roger Kumble já tem dez anos, ou melhor, que já passaram dez anos desde que o filme foi visto pela primeira vez.
Cruel Intentions é baseado no livro Les Liaisons Dangereus de Choderlos de Laclos, mas foi em tudo inovador, já que ao invés de mostrar uma alta sociedade de bons costumes e valores vincados, representação muito típica das novelas, das soap operas, e de Hollywood em geral, centrou todas as suas atenções nos jovens Sebastian (Ryan Phillippe) e Kathryn (Sarah Michelle Gellar), produtos de uma alta sociedade cosmopolita Nova Iorquina, que se divertem com os seus jogos e esquemas, onde o sexo e as drogas (estas em menos evidência) ditam as regras.
Quando a jovem Annette (Reese Whiterspoon), uma defensora do sexo apenas após o casamento, se muda para a cidade, Sebastian e Kathryn colocam em campo uma aposta na qual Sebastian terá como objectivo desvirtuar a jovem, sendo que em troca poderá satisfazer as suas fantasias com Kathryn. O filme conta com elenco repleto de teen stars dos anos noventa, o que ajuda na caracterização de uma sociedade adolescente que procura a diversão através de comportamentos miméticos retirados de um mundo de adultos que os contorna e os tenta num dia-a-dia, onde tudo lhes é presenteado e nada é conquistado. Transformando-se então essas conquistas em conquistas físicas, conquistas sexuais. Sebastian é um vilão encantador que prova ter um soft spot, no entanto mesmo no final, o olhar presente na sua foto fúnebre, é um olhar repleto de intenção, vitorioso e maquiavélico, talvez o soft spot tenha sido apenas uma fraqueza momentânea.
Paralelamente à aposta pela virtude de Anette, Kathryn toma sobre a sua “proteção” Cecile (Selma Blair), uma jovem debutante que a mãe espera que se consiga tornar uma senhora. Contudo, Kathryn pretende o contrário, pretende fazer de Cecile “the premiere tramp of the New York area”. Selma Blair é um contraponto excelente ao que a rodeia, jovem e inocente, despreocupada e inexperiente, será arrastada para o mundo das traições, jogos e manipulações, sendo que pelo caminho proporciona um dos bons momentos do filme.



Cecille e Kathryn num beijo que deu que falar.




O beijo valeu o galardão MTV de 2000 na categoria de Best Kiss.



A repetirem o momento, menos acanhadas do que em palco.

Trata-se de um filme onde a fronteira entre goodevil se misturam vastas vezes, há quem prefira aceitar que no fim o Bem/good tem capacidade para triunfar e que o sacrifício de Sebastien o redime dos seus actos. Eu prefiro ver tudo como um grande plano de Sebastian, onde conseguiu tudo a que se propôs, jogando as peças à sua maneira, corrompendo Annette da pior/melhor maneira que poderia ter feito… tornou-a igual a ele.

domingo, 8 de novembro de 2009

Step Brothers




2008
Comédia
98 minutos
Adam McKay (realização e guião)
Will Ferrell (guião)

"I swear, I'm so pissed off at my mom. As soon as she's of age, I'm putting her in a home."


Brennan Huff


O poster do filme, praticamente, cria todo o setup da película. O primeiro sorriso surge logo ao olhar para este cartaz ao melhor estilo “retrato de família”.
Adam McKay já colaborou anteriormente com Will Ferrell, em comédias como Talladega Nights: The Ballad of Ricky Bobby (2006) e Anchorman: The Legend of Ron Burgundy (2004), tendo essas colaborações ficado marcadas por comédias hilariantes, mesmo que nem sempre sejam do agrado de todo o público.
Em Step Brothers a dupla McKay/Ferrell ganha um aliado de peso, um dos melhores actores da sua geração que tem vindo a apostar cada vez mais na comédia, um terreno onde parece enquadrar-se na perfeição. Falo de John C. Reilly (completou a tripla, Mckay/Ferrell/Reilly no filme Talladega Nights) que até já foi falado aqui no aminhacinefilia. O elenco contra com outros nomes conhecidos, mas são Reilly e Ferrell quem tomam conta de todo o filme.
As personagens interpretadas por Ferrell e Reilly são man childs, trintões/quarentões que ainda vivem com a mãe e com o pai, respectivamente. Quando os progenitores de ambos se apaixonam e decidem morar juntos, os “jovens” adultos têm de partilhar a sua existência, repartindo a atenção que até então era exclusiva. De notar a linha comum em grande parte das comédias americanas mais recentes, onde o conflito e a separação apenas servem para o precipitar de um final harmonioso e feliz.
A interacção entre os dois actores é brilhante e todas as situações criadas roçam o riso descontrolado, seja as entrevistas de emprego em conjunto, seja os ataques de sonambulismo, passando pelo videoclip denominado Boats ‘N Hoes. Reilly e Ferrell conseguem ser crianças hiperactivas, adolescentes em fase de descoberta, assim como adultos irresponsáveis, tudo num punhado de cenas.
Ficamos com vontade de ver estes dois actores em todas as comédias possíveis, e sinceramente, todas as comédias em que só aparece um deles, vai parecer sempre, mesmo que inconscientemente, que há algo a faltar.
*Aproveitem para ver o clip Boats ‘N Hoes da autoria de Muff ‘N Doback (Ferrell e Reilly), assim como os bloppers ocorridos durante as filmagens, estão ambos disponíveis no youtube, e são ambos de ir às lágrimas. Se não conseguirem achar piada nenhuma… é sinal que o vosso sentido de humor anda pelas ruas da amargura.



quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Who the #$&% Is Jackson Pollock?




2006
Documentário
74 minutos
Harry Moses (realização)


"Most of the fairy tales begin with “Once Upon a Time”. Most of the truck drivers stories begin with “You are not going to believe this”."

Teri Horton


Será possível existirem peças de arte perdidas pela mundo? Será possível que ninguém saiba que alguma vez existiram? Talvez.
 Este documentário segue o périplo de Teri Horton, uma camionista septuagenária que compra numa loja de coisas em segunda mão, uma tela por 5 dólares. Quando lhe sugerem que essa tela poderá ser um original de Jackson Pollock, Teri inicia uma caminhada monumental na tentativa de provar a autenticidade do quadro.
O mundo da arte é aqui visto pelo que realmente é, um mundo de interesses e de prepotência, onde um conjunto de “experts” se considera detentor da verdade, não admitindo que contradigam a sua opinião, e refutando mesmo a mais moderna ciência forense. O facto de a proveniência do quadro não ser determinada, e o facto de não se encontrar assinado por Pollock descredebilizam o quadro, para não falar de apenas ter custado os já citados 5 dólares. O que é certo é que Teri recebe, inicialmente, uma proposta de 2 milhões de dólares e, posteriormente, uma proposta de 9 milhões, sendo que recusa ambas. A energia de Teri é contagiante, tendo uma história de vida interessantíssima, que em tudo ajudada a colorir todo o contexto de procura de respostas em que esta se vai envolver. Como ela própria diz, trata-se de uma questão de princípio saber se o quadro é verdadeiro.


O quadro de Teri.

O realizador procura mostrar bem o antagonismo existente entre classes, numa tentativa de realçar as assimetrias que existem entre aqueles que se julgam senhores da verdade, e entre o americano comum, uma pessoa de causas que não se poupa a esforços para conseguir provar os seus intentos. É notório que o mundo da arte é em tudo um meio fechado, onde se vive das aparências e das intenções, como fica visível através do contributo de Tom Volpe, que se tornou especialista em vender quadros a preços exorbitantes, apenas porque falsificava a sua proveniência. Aliás, é assumido pelos especialistas que falsificação de documentos é comum, além de ser facílima de se realizar, ou seja, estamos perante um universo onde tudo pode parecer e não ser, ou ser e não se querer que seja.
A voice-over que acompanha a história peca por nunca se afirmar, conferindo um tom de reportagem a um documentário bem interessante, que teria tudo a ganhar se ao menos tivesse uma voz mais expressiva a liderar os rumos da história.
No final não interessa saber se o quadro é verdadeiro ou não. O facto de se tratar de um dos artistas mais importantes do século XX (durante o filme um amigo de Pollock diz mesmo que o pintor foi melhor que Picasso) e de trazer o seu nome de novo para os espaços públicos, é recompensa suficiente. Imaginar que Pollock continua a ser um ilustre desconhecido para maior parte dos seus conterrâneos é algo de inimaginável em pleno século XXI (um quadro de Pollock visto ao vivo é algo de indescritível).
Será o quadro de Teri um Pollock original? O que importante é que “jovem” septuagenária já sabe responder à sua pergunta, a mesma que deu origem ao título do filme.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Tropic Thunder



2008
Comédia
107 minutos
Ben Stiller (realização e guião)
Justin Theroux (guião)
Etan Cohen (guião)


"I don't read the script. The script reads me."
Kirk Lazarus

Ben Stiller tem conseguido, enquanto actor, uma carreira sólida no mundo da comédia americana, ao mesmo tempo que tem dado asas à sua faceta de realizador, contando já com quatro longas-metragens realizadas. Com Tropic Thunder (2008) conseguiu aliar vários factores distintos, desde uma produção com meios e financiamento elevados, um leque de actores escolhidos a dedo, e carta branca para poder “desancar” no mundo da indústria cinematográfica americana a seu belo prazer.
O filme segue as filmagens de um filme passado durante a guerra do Vietname, acompanhando um grupo de soldados composto pelos actores Robert Downey Jr., Jack Black, Jay Baruchel, Brandon T. Jackson e o próprio Bem Stiller; há ainda que contar, no elenco, com os nomes de Matthew McConaughey, Steve Coogan, Nick Nolte e um quase irreconhecível Tom Cruise.
Stiller enfrenta de forma despudurada alguns dos grandes chavões e preconceitos dominantes por trás de toda a produção cinematográfica americana, desde o racismo, às pessoas portadoras de deficiência, aos agentes e produtores que não olham a meios para conseguirem que os seus investimentos lhes garantam o, tão esperado, retorno necessário. Trata-se de uma comédia pura e dura, que não procura em momento algum pisar terrenos que não os seus.
De realçar o factor de a acção correr on location, contrabalançando o nonsense e ajudando a criar o ambiente necessário para o desenrolar do filme. Podemos dizer que a ideia de levar os actores para o local da acção, acaba por beneficiar também o espectador, pois este acaba por ter uma maior envolvência, fruto da exploração espacial explorada por Stiller.
Com uma premissa base muito boa, e com um elenco all-star, Ben Stiller conseguiu provar que pode ser uma boa aposta para os grandes estúdios, já que o frenesim em torno de Tropic Thunder foi mais que muito. Talvez seja altura de experimentar (novamente) outros caminhos para além da comédia.
Não posso terminar sem referir Robert Downey Jr., no papel de Kirk Lazarus, numa daquelas performances que sozinhas conseguem 'suportar' o filme. Sinal disso mesmo, foi o facto de este papel ter valido a nomeação ao Oscar para melhor actor secundário, algo notável tendo em conta que se trata de uma comédia.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Batman: Dead End




2003
Fantasia (Curta-Metragem)
8 minutos
Sandy Collora (realização e guião)


"Look at my face. This is who I am. My... 'mask' is permanent. You have a choice."
Joker


Esta vai ser uma estreia, a primeira aparição de uma curta-metragem aqui pelo A Minha Cinefilia.
Descobri esta jóia completamente por acaso, deparei-me com a referência a Batman e decidi investigar. Por sorte, e por se tratar de uma película de curta duração, esta encontra-se disponível na totalidade no Youtube, o que me permitiu visionar, aquilo que seria um filme a que de certeza nunca teria acesso (tendo em conta, não só que a pirataria não é aprovada aqui no burgo, como o escasso acesso que Portugal tem a obras deste tipo).
Falo do filme de Sandy Collora, Batman: Dead End (2003), exibido na Comic-Con de 2003, onde almejou grande sucesso. Collora filmou esta obra com o intuito de mostrar as suas capacidades como cineasta, na esperança de conseguir ofertas para realizar longas-metragens. Pode dizer-se que esse objectivo foi conseguido, já que Hunter Prey, a primeira incursão no universo das longas, se encontra pronto a estrear.
Voltando a Batman: Dead End, trata-se de um trabalho executado de forma incisiva, resultando num produto final acutilante. Esqueçam os dois filmes mais recentes do Cavaleiro das Trevas, despojem Batman de toda a tecnologia inerente ao século XXI, esqueçam o Joker de Heath Ledger, e acima de tudo, lembrem-se da personagem da banda-desenhada e dos primeiros filmes/séries de televisão. Se conseguirem isso tudo, vão ver um dos melhores Batmans de sempre.
Aqui Batman (Clark Bartram) persegue Joker (Andrew Koening) que escapou de Arkham, num confronto directo cru e terrivelmente honesto, onde a existência e coexistência destes eternos rivais é aferida como uma dialéctica derrotista, onde a salvação apenas poderá residir na anulação parcial, mas nunca total de um dos seus intervenientes. Collora utiliza a economia narrativa de forma hábil, criando todo o setup para este confronto, apresentando-nos ainda Batman com planos bem conseguidos – o plano em que Batman se ergue na rua, com a capa sobre o pavimento molhado, é belíssimo. Batman é apresentado como um tipo duro, nada high-tec, muito em contacto com o seu lado mais sombrio, um vingador, um justiceiro. Joker é um louco fugido do asilo, muito bem apresentado, em constantes jogos psicológicos, numa interpretação próxima do Joker original, mas distanciada o suficiente para se pautar como um trabalho muito interessante (não esquecer que Heath Ledger só apareceria com o seu Joker em 2008 em The Dark Knight de Christopher Nolan). Os ambientes são sombrios, a chuva e a escuridão dominam grande parte desta Gotham de Collora, ajudando ainda mais na caracterização do universo e também das personagens.
Mas, eis que se dá um twist que para uns matará completamente o trabalho de Collora, e que para outros, apenas lhe dará mais layers. Com a utilização de personagens conhecidas, o realizador faz o cross-over entre o mundo de Batman, de Alien e de Predator. É isso mesmo, surgem Aliens e Predators na acção, ajudando a mostrar um Batman mortífero, em combates directos e brutais. Podemos de dizer que é rebuscado demais misturar estes universos, mas o que é certo é que lhe dá um certo toque de originalidade e criatividade, colocando frente a frente um dos mais famosos e amados super-heróis, com dois (três, se contarmos com Joker) dos mais amados vilões do cinema.
Vale definitivamente a pena, quer seja pelo universo de Gotham que transmite um sentimento de proximidade com o material original, quer pela 'inovação' artística de Collora. Uma obra que serve como cartão de apresentação de um realizador que ousou usar a sua paixão para criar uma história, uma homage a um herói, isto é, um realizador que não teve medo de dar asas à sua cinefilia.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Cherry 2000



1987
Acção/Sci-Fi
99 minutos
Steve De Jarnatt (realização)
Michael Almereyda (guião)

“You are not ‘gonna’ find anybody better than me, Mister.”

Edith E. Johnson

Estive tentado a não actualizar mais o blog, afinal como é que poderia continuar depois de Masters of the Universe? O canal mov da tv cabo deu-me a resposta, com outro filme saído da década de 80. Outro filme que rapidamente atingiu um estatuto de culto, não por ser uma obra de arte, mas por todo o imaginário circundante. E é verdade, outro filme saído de 1987, ano fértil. Para os que como eu aderiram ao boom dos clubes de vídeo durante os anos 80, este é um daqueles filmes que começa com o logo da Orion, outra produtora já extinta, à imagem da Cannon do filme anterior.
Cherry 2000 (1987) de Steve De Jarnatt, é um tipíco B-movie, feito para agradar a um público menos exigente a nível cinematográfico. Trata-se de uma obra clara de exploitation, onde as explosões, mortes e mulheres atraentes e perigosas dominam toda a acção. No filme, Sam (David Anrews) procura substituir a sua Cherry 2000, uma mulher robot que o preenche e completa em todos os campos, depois desta sofrer um curto-circuito. Para a conseguir substituir terá de viajar até aos confins da ‘Zone 7’, uma wasteland dominada pelos gangs. Para levar acabo a sua missão contrata Edith E. Johnson (uma Melanie Griffith belíssima, ao contrário daquilo que é hoje) uma tracker, que o guiará até uma soterrada Las Vegas na procura de uma réplica da sua Cherry.
Realce para o vilão Lester (Tim Thomerson), um vilão insano que ao mesmo tempo consegue ter um lado nonsense encantador; assim como Six-Fingered Jack interpretado pelo grande Bem Johnson, vencedor de um Oscar pelo seu papel em The Last Picture Show (1971) de Peter Bogdanovich; de notar também um cameo de Larry Fishburne, agora Lawrence Fishburne (como advogado que intermeia relações sexuais), o Morpheus de The Matrix (1999) dos irmãos Wachowski.
Cherry 2000 mostra-nos uma sociedade onde o contacto entre humanos é reservado/proibido, sendo o sexo um acontecimento circunscrito, tratado como um bem e transaccionado com o recurso a advogados especializados. Os robots fazem parte do dia-a-dia, ocupando o vazio existente, levando o Homem a esquecer as relações humanas, criando laços vazios de significado maior. Embora o ano fosse o de 1987, De Jarnatt consegue veicular bem esse aspecto, que nos dias de hoje é gritante, cada vez mais nos isolamos com recurso à tecnologia, limitando o contacto humano, quer por comodismo, quer por medos excessivos (veja-se a ‘febre’ criada pela gripe A).
No final Sam percebe que é preferível optar por E. em detrimento de Cherry, claro que uma mulher que conduz um Mustang, dispara todo o tipo de armas, desde pistolas a bazucas, e que tem um cabelo cor-de-laranja deslumbrante, é bem melhor que qualquer sex toy.
À imagem do poster do filme anterior, este também é uma daquelas jóias dos anos 80, daqueles que dá vontade de ter a VHS (eu por acaso ainda a tenho), nada destas capas recentes, vejam e comparem. Mesmo sendo evidente que no poster original algumas coisas não batem certo, vejam bem o (suposto) braço de Melanie, autêntico Stallone.
Não esqueçam, claro, que (ainda) estávamos em 1987.


Capa da versão DVD, já sem o encanto do original.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Masters of the Universe



1987
Fantasia
106 minutos
Gary Goddard (realização)
David Odell (guião)

"Men who crave power look back on the mistakes of their lives, pile them all together and call it... destiny."
Sorceress

Longe vai o ano de 1987, longe vão as memórias da infância, mas as boas recordações, essas duram para sempre. Naquelas horas intermináveis de desenhos animados, sem dúvida que um dos que mais me fascinava e seduzia (ao ponto de comprar os bonecos, ou como se intitulam agora as action figures) era He-Man and the Masters of the Universe (1983-1985).
Não me importava o penteado à Beatriz Costa que He-Man/Prince Adam ostentava com orgulho; que Skeletor apenas fosse esqueleto do pescoço para cima; que Man-At-Arms fosse o único habitante de Eternia com bigode; que Orko não tivesse pernas; que ninguém, excepto três pessoas, soubesse que Prince Adam era He-Man, quando a única diferença estava nas vestes; que He-Man e Skeletor andassem ambos em roupa interior como se nada fosse; ou mesmo que She-Ra a irmã gémea de He-Man tivesse a sua própria série de desenhos animados com outros vilões e companheiros, em vez de juntar forças na protecção do castelo de Grayskull, enquanto He-Man aparece várias vezes para ajudar a irmã a defender o seu Crystal Castle em Etheria.

O elenco original.

O que interessa é que não me importava com nada disto, pois a qualidade da animação era abundante, criando uma avultada base de fãs em todo o mundo. Ora, Hollywood não poderia deixar passar esta oportunidade sem tentar capitalizar no sucesso da série de animação. Assim surgiram planos para uma adaptação ao grande ecrã, uma longa-metragem com actores a desempenhar as apaixonantes personagens, com um guião que seguiria o herói na sua luta titânica com o seu eterno rival, dando espaço para desenvolver quer o Universo de Eternia, quer os seus famosos habitantes.
Contudo existiam vários problemas que ao que parece ninguém quis ter em consideração:

1º - estávamos em 1987;
2º - as adaptações de BD ou séries de animação eram tidas como filmes para crianças;
3º - o ano era 1987;
4º - o Universo de Eternia não existia;
5º - a produtora Cannon Cinema estava à beira da falência;
6º - a adaptação de He-Man ao cinema seria o filme mais caro de sempre da Cannon;
8º - 87, 1987;
9º - Cannon iria falir antes do filme estar terminado;
10º - não sendo um filme para crianças, o público não sabia o que esperar, os efeitos especiais necessários não eram ainda suficientes e satisfatórios para uma produção desta envergadura, ou seja… estávamos ainda no ano de 1987!

Nada disto impediu que em 1987 a produção avançasse a cargo do realizador Gary Goddard, o apelido pode ser sugestivo, mas a verdade é que o seu único filme realizado acabou por ser mesmo Masters of the Universe (1987). Quando doravante eu falar em guilty pleasures, esta será a minha referência. Mais uma vez não me importa que o filme seja mau em praticamente todos os seus quadrantes, o que é certo é a que a magia está lá. Dolph Lundgren saído de Rocky IV (1985) de Sylvester Stallone, onde desempenhara o soviético Ivan Drago, foi escolhido para dar vida a um He-Man que nunca chega a ser Prince Adam, algo previsto pelo guião.


O herói em versão Mattel e em versão Hollywood.

Não previsto estava as dificuldades financeiras que obrigaram a alterações na história. Assim, a acção não iria decorrer em Eternia, mas sim no planeta Terra, não sendo necessário gastar dinheiro a criar cenários e personagens elaboradas.
O castelo de Grayskull é conquistado por Skeletor (o talentoso Frank Langella), obrigando He-Man, Man-At-Arms, que felizmente, manteve o seu carismático bigode (John Cypher), Teela filha de Man-At-Arms (Chelsea Field) e Gwildor um feiticeiro criado para substituir o voador Orko (Billy Barty), a refugiarem-se no planeta Terra, onde contariam com a ajuda dos jovens Kevin (Robert Duncan McNeill, hoje um realizador com bastante trabalho no mundo das séries de tv) e Julie (Courtney Cox, sim a Monica de Friends (1994-2004)).
Skeletor é fascinante, mas a máscara utilizada para simular a caveira tem sempre um aspecto falso, difícil de digerir. Já o séquito de vilões ao serviço de Skeletor e Evil-Lyn (Meg Foster) alterna entre o ridículo e o apelativo, enquanto os elementos do exército do mal, são claramente extraídos do Universo Star Wars, assim como os raios laser. Vermelho para os ‘maus’, azul para os ‘bons’. Torna-se interessante ver He-Man a utilizar armas de raio laser em vez da sua fiel Power Sword (é verdade, também tive uma destas de brincar), para não falar da chave que precisam para retornar a Eternia e que Kevin usa como sintetizador… japonês. Eu já referi que estávamos em 1987?
Embora tudo isto, um filme foi preparado como sequência, tinha guião, cenários, e até guarda-roupa, mas quando o filme de Gary Goddard fracassou, os planos mudaram, dando origem ao filme Cyborg (1989) de Albert Pyun com Jean-Claude Van Damme no principal papel. No site imdb.com por exemplo, ainda é possível ver o título original do filme “Masters of the Universe 2: Cyborg”.
Não há forma de articular uma crítica capaz a Masters of the Universe, ora é o coração a falar mais alto, ou a razão a chamar-me à realidade e a fazer-me aceitar o quão deficitário é o filme. No entanto é daqueles objectos que irão perdurar sempre no imaginário de todos os fãs, que verão nas suas peculiaridades mais uma razão para verem e reverem o primeiro e grande super herói que tivemos o privilégio de apoiar. Masters of the Universe entra naquele universo de filmes produzidos durante a década de 80, assim como Flash Gordon (1980) de Mike Hodges, que nunca se chega bem a perceber se a intenção é serem declaradamente campy, ou se apenas o são por inépcia do realizador. Enquanto Flash Gordon ganhou status de culto, Masters of the Universe foi sendo esquecido e negligenciado. Contudo, nesta fase de revivalismo dos gloriosos 80’s, aqui fica o meu contributo, na esperança que se possa voltar a ouvir orgulhosamente “By the power of Grayskull… I HAVE THE POWER!!!!”.

Les poupées russes



Romance/Drama/Romance
2005
125 minutos
Cédric Kaplisch (realização e guião)

"I know you're not always perfect. I know you have tons of problems, defects, imperfections... but who doesn't? It's just that I prefer your problems. I'm in love with your imperfections. Your imperfections are just great!"
Wendy

Depois de um ano de descoberta e liberdade, de perceber o que realmente não se quer da vida, de finalmente começar a lutar por um sonho, o que nos resta? O conformismo a uma sociedade onde não conseguimos existir da forma como pensávamos ser possível, continuando a pautar a vida por uma sequência interminável de escolhas erradas e de desilusões constantes.
Esta é a vida de Xavier Roousseau (Roman Duris) em Paris depois de completada a aventura de Erasmus em Espanha, L’auberge espagnole (2002). Cédric Klapisch volta à personagem de Xavier dando seguimento ao sucesso conseguido com o primeiro filme. É uma oportunidade de voltar a rever as personagens do primeiro filme, com destaque para Wendy (Kelly Reilly), Isabelle (Cécile de France), William (Kevin Bishop) e Martine (Audrey Tatou).
Em Les poupées russes (2005) Kaplisch mostra o retorno à realidade mundana e citadina de um jovem parisiense, o acordar de um sonho que pareceu poder existir para todo o sempre. As escolhas e a mudança são temas bases do filme, temos o poder de decidir/escolher, assim como o poder de mudar sem nunca esquecermos quem somos. O casamento de William serve como metáfora para a passagem à idade adulta de um grupo de jovens que se vê obrigado a crescer, a assumirem-se (mesmo que não o quisessem) como adultos, como membros activos de uma sociedade onde, ainda, não se revêem. Kaplisch mistura mais uma vez habilmente elementos cómicos, com laivos de romance e drama, numa agradável amálgama de sensações.
Pode argumentar-se que é um filme sem o mesmo poder de encantamento como o primeiro, mas trata-se de um filme mais maduro que procura encontrar o mesmo público numa diferente fase da sua própria vida, sendo certo que a identificação só acontece com o amadurecimento pessoal de cada um.
É bom encontrar e rever todos aqueles que nos encantaram em Espanha, e saber que o futuro pode, afinal, ser aquilo que sonhávamos, que podemos encontrar o nosso lugar, que podemos assumir as nossas escolhas, que encontraremos a pessoa a que diremos “i love you” como acontece nos filmes.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Walk Hard: The Dewey Cox Story



Comédia
2007
96 minutos
Jake Kasdan (realização e guião)
Judd Apatow (guião)

"And you never once paid for drugs. Not once!"
Sam


É algo comum a todos os apreciadores de cinema, que raio, é algo comum a todo o ser humano, rir é das poucas coisas que todos gostamos, quer seja por uma simples anedota, quer seja por um bem executado sketche. Contudo, comédias que nos consigam prender e fascinar de forma constante e duradoura cada vez são menos, ainda são menores o número de paródias (spoof movies) que conseguem subsistir nos dias de hoje.
Walk Hard: The Dewey Cox Story (2007) de Jake Kasdan, aqui a estrear-se na realização de uma longa-metragem, consegue conjugar todos os elementos de uma boa comédia, superando-se ainda ao dispor de uma banda sonora original de grandíssima qualidade. O filme de Kasdan faz uma súmula de grande parte dos biopics que em grande número invadiram Hollywood nos últimos anos, desde Walk the Line (2005) de James Mangold, passando por Ray (2004) de Taylor Hackford e Beyond the Sea (2004) de Kevin Spacey; não se poupando a algumas alfinetadas directas a Michael Jackson, David Bowie, Bob Dylan, Brian Wilson entre tantos outros. Um olhar descomprometido sobre o mundo discográfico, a criação de estrelas, os altos e baixos, os erros e virtudes, a queda e o reconhecimento, em suma, consegue resumir toda e qualquer personalidade musical de real notoriedade.
John C. Reilly é um dos grandes actores norte-americanos que aqui assume o filme como actor principal, numa demonstração de todo o seu talento e também capacidade vocal, algo que já tinha ficado patente em Chicago (2002) de Rob Marshall. Mesmo numa representação propositadamente goofy, o engenho de Reilly é sublime. Suportado por um elenco repleto de estrelas, entre elas Jenna Fischer (The Office) onde se torna quase uma actividade paralela identificar todos os cameos que vão existindo, desde Harold Ramis, a Frankie Muniz, Ed Helms, Jack White, Jonah Hill, Jack Black, Paul Rudd, Justin Long e Jason Schwartzman para citar alguns.
É uma comédia onde é impossível não rir, onde as pequenas subtilezas dão ainda mais cor a uma história bem trabalhada, onde acompanhamos Dewey desde a sua infância até à velhice, de realçar que John C. Reilly interpreta Dewey Cox desde a adolescência até à sua morte, isto é, desde os 14 anos até aos 71 anos finais. Faltam-me palavras para descrever o gozo enorme que é assistir a esta produção de Judd Apatow (o novo menino bonito das comédias americanas), desde as representações, passando pelas diferentes fases da vida de Dewey, marcadas pelas suas metamorfoses artísticas, assim como pela sua viagem pelo mundo dos narcóticos, sem esquecer o grande valor a nível musical que quer a letra, quer as músicas possuem. Na campanha de promoção do filme realizaram-se concertos do próprio Dewey Cox (com o próprio C. Reilly a cantar e tocar), o que demonstra o poderio musical do filme, responsabilidade de Michael Andrews.
Sem dúvida a comédia e o spoof movie que mais me arrebatou de há muitos anos para cá, sendo a procura pelo CD da banda sonora a minha próxima quest.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Twilight



Fantástico/Romance
2008
122 minutos
Catherine Hardwicke (realização)
Melissa Rosenberg (guião)

"Death is peaceful - easy. Life is harder."

Bella Swan


Não sou muito de ir pelo hype criado em torno de um filme, aliás, só mesmo o inverso, quando algo tem uma aceitação massificada sem grande fundamento, opto por esperar uns tempos, deixar assentar a “poeira” e tentar julgar por mim próprio. Neste caso a poeira foi mais que muita, sendo que poeira surge agora sem aspas de forma intencional.
Catherine Hardwicke surgiu no panorama da realização com Thirteen (2003), estabelecendo-se como uma voz feminina de realce no universo de Hollywood. Seguiu-se Lords of Dogtown (2005) (que esteve quase para ser realizado por David Fincher), realizando em 2006 The Nativity Story. Um corpus bastante heterogéneo, dando uma imagem de polivalência e competência nas obras realizadas.
Em 2008 realizou o seu maior sucesso até à data, Twilight, adaptação ao grande ecrã do primeiro livro da saga escrito por Stephenie Meyer. Hardwicke tornou-se mesmo a primeira mulher realizadora a conseguir quebrar a barreira dos 150 milhões de dólares (nos Estados Unidos), contudo a história de Bella Swan (Kristen Stewart) que ao decidir ir viver com o seu pai na pequena localidade de Forks, se apaixona por Edward Cullen (Robert Pattinson) um vampiro pertencente a uma “família” de vampiros que habita nas imediações. O filme segue uma narração de Bella, num tom confessional, como lendo páginas do seu próprio diário, algo que faz a ponte entre o filme e o livro e dos poucos elementos que consegue subsistir durante a película.
Consegue-se perceber o apelo que o filme exerceu sobre o público, sem grande receio em errar, posso mesmo dizer que se tratou de um público maioritariamente adolescente ou mesmo pré-adolescente. Actores com bom aspecto, personagens enigmáticas (para não dizer vazias e superficiais), um grupo de outcasts que se move à margem da sociedade imperante e um romance que anda sempre na berlinda entre o amor e a morte. Em suma, todos os ingredientes para um dos filmes mais insípidos dos últimos tempos, que soube aproveitar bem esta nova trend onde os vampiros e tudo o que os rodeia ganharam uma nova aura, fascínio que sempre existiu, mas que agora se massificou, sendo indubitavelmente cool. Nunca se chega a perceber bem o enredo de Twilight, há quem defenda que não existe um, mas a história de amor entre um vampiro centenário e uma jovem de 17 anos, tem tudo de sinistro e assustador e nada de fascinante e encantador.
Trata-se de uma peça de joalharia com um brilho e apelo intenso, mas que de preciosa não tem nada. A continuação já está nos cinemas e o terceiro filme também já está a caminho, pode ser que Twilight apenas tenha servido como introdução para melhores coisas que se seguirão, assim espero.

District 9



Ficção Científica
2009
112 minutos
Neill Blomkamp (realização e guião)
Terri Tatchell (guião)

"When dealing with aliens, try to be polite, but firm. And always remember that a smile is cheaper than a bullet."

Automated MNU Instructional Voice


Com a chancela de Peter Jackson chega este District 9, uma das maiores surpresas do ano. O filme surge de uma curta-metragem previamente realizada pelo realizador Neill Blomkamp intitulada Alive in Joburg (2005), que lhe conferiria um estatuto aceitável para encabeçar um grande projecto. A ideia inicial era Blomkamp realizar a versão cinematográfica do jogo Halo, mas quando o projecto fracassou, o produtor Peter Jackson entregou 30 milhões de dólares a Blomkamp para este realizar o que bem entendesse, o resultado foi um inovador filme de ficção científica/fantástico.
Os extraterrestres chegam à terra, perdidos desorientados e sem nenhum plano de conquista e domínio da raça humana, bem pelo contrário. Os humanos rapidamente dominam, testam e segregam os visitantes em bairros de lata, fortemente policiados e vigiados. As pontes de ligação entre a separação racial vivida na África do Sul e o separatismo que vitimam os Prawns (termo depreciativo usado pelos humanos para com os alienígenas) não são casuais, a infância do realizador foi marcada por esses factores, que habilmente transporta como meio de união entre a raça humana contra um ser que apenas é diferente.
O filme divide-se em duas partes bem distintas, seguindo a primeira parte um estilo de documentário ficcional, com a câmara na mão, seguindo Wilkus (Sharlto Copley) e a sua equipa na tentativa de realojarem os aliens em novas instalações, em tudo semelhante a um campo de concentração, sendo o filme pontuado por entrevistas desde especialistas que procuram compreender melhor a espécie a populares revoltados com a presença dos aliens. Na segunda metade o filme passa a um filme de acção repleto de efeitos especiais, seguindo a tentativa de Wilkus se transformar num prawn.
A mestria de Blomkamp está na subversão de alguns aspectos comuns neste tipo de filme; como é dito no próprio filme, por incrível que pareça os alienígenas não escolheram Nova Iorque ou outra qualquer cidade americana para se darem a conhecer, escolherem um local quente, onde os índices de pobreza e desigualdade social são acentuados, onde as slums são mais que muitas; o facto de o Homem ser a espécie dominante, ocupando o lugar do invasor, mesmo sendo a espécie visitada, subverte toda e qualquer ordem comum aos filmes de extraterrestres; assim como a caça a um humano que se vai gradualmente transformando, a procura incessante por este ser que se torna valioso pelos ganhos tecnológicos/bélicos que pode garantir às grandes empresas e Governos.
As questões sociais, assim como o racismo e a xenofobia são o leitmotiv subjacente ao longo de todo o filme, não havendo um apontar de dedo directo, há como que um tocar a consciência do ser Humano para não esquecer os erros do passado, pois quem esquece os esquece, está condenado a repeti-los.
A porta fica aberta para uma continuação, algo que não deve ser muito complicado tendo em conta o sucesso nas bilheteiras, contudo acho que a história de Wilkus, mesmo tendo em conta todas as incongruências da narrativa,  ficava bem concluída se ficasse por aqui.

Postal



Comédia
2007
100 minutos
Uwe Boll (realização e guião)
Bryan C. Knight (guião)

"You people are fighting each other in war and destroy the world in the name of God. God doesn't need your help to destroy the world. He is God, hello?"

Dude

Há filmes que entram no nosso baú cinéfilo denominados de guilty pleasures, este é um filme que tem todas as condições para o ser, no entanto acaba por não conseguir fazer a viagem completa até a esse meu lote pessoal, embora tenha momentos que vão perdurar.
Realizado em 2007 por Uwe Boll, um dos realizadores mais odiados em Hollywood, trata-se mais uma vez de uma adaptação de um vídeo game ao grande ecrã, algo em que Boll se tem especializado, algo que também tem sido uma das suas maiores críticas.
O filme segue Dude (Zach Ward) durante um dia em que tudo lhe corre mal, não consegue emprego, a sua mulher engana-o com o vizinho, e a sua última esperança um tio charlatão está na falência. Mas a premissa do filme é algo de secundário, assim como no jogo de computador, o que interessa é a capacidade de destruição e a magnitude das acções que se vão realizando. Realce para a participação do próprio Uwe Boll a representar-se a ele próprio, também Vince Desiderio criador do jogo Postal, assim como Verne Troyer (o conhecido Mini Me da saga Austin Powers) sem pudor em se rir de si próprio.
Não deverá ser levado demasiado a sério, melhor, não pode nunca ser levado a sério, nem com segundas intenções, deve ser visto como entretimento nonsense, onde os estereótipos (são imensos ao longo de todo o filme) se misturam com a crítica às instâncias locais e mundiais, Osama e Bush marcam presença na acção.
Mesmo parecendo deslocada do filme, quero realçar a sequência que antecede o genérico, onde dois piratas do ar discutem a existência e a eternidade depois de se tornarem mártires. Caso não possam ou não queiram ver o filme todo, vejam pelo menos esses minutos iniciais.
Para alguns é o melhor filme de Uwe Boll, para outros apenas mais um prego no caixão deste realizador. Para mim trata-se de uma comédia que consegue colocar um sorriso em qualquer cara, sendo que não podemos esquecer que tem um pé no universo das paródias (Airplane, Naked Gun), só é pena não conseguir ter os dois.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Stranger Than Fiction



Drama
2006
113 minutos
Marc Forster
Zach Helm (guião)

“I’m being followed by a woman’s voice.”
Harold Crick

Stranger Than Fiction de Marc Forster é uma daquelas pérolas que vale a pena ver, rever, procurar o guião para o ler e reler, telefonar aos amigos e ter a certeza que o vêem e revêem e por aí fora.
Harold Crick (Will Ferrell no seu melhor papel até agora) é um funcionário do IRS que sofre de uma excessiva e marcada rotina diária, mesclada com laivos de comportamentos obsessivos compulsivos; que de repente começa a ouvir uma voz de mulher a narrar a sua própria vida, não a vida passada ou acontecimentos futuros, mas a vida que se desenrola agora. Essa voz pertence à escritura Karen Eiffell (Emma Thompson) que se encontra a terminar o seu mais recente livro, sem contudo saber como matar a personagem principal, um tal de Harold Crick.
Pelo meio há um elenco riquíssimo com um Dustn Hoffman num daqueles papéis que lhe assenta na perfeição, uma Maggie Gyllenhaal esplêndida, passando por Queen Latifah, Tony Hale e Tom Hulce entre outros.
O guião de Zach Helm é deslumbrante, um daqueles trabalhos que se assemelha, quer pelo estilo, quer pela sua quirkiness dos trabalhos de Charlie Kaufman, as pontes entre este Stranger Than Fiction e Adaption. (2002) de Spike Jonze são várias, mas o guião de Helm tem força para subsistir por si próprio. Aliado ao guião surge a realização de Forster que consegue dispor na perfeição o mundo descoincidente de Harold, onde tudo se transforma em números, em percentagens e contas, assim como o mundo de Karen onde a fantasia e a imaginação tomam conta do real, na tentativa de achar a melhor morte, aquele que se adequa melhorar ao seu ‘herói’, o seu final perfeito.
Este é um daqueles filmes que nos faz querer pegar numa caneta e começar a escrever, que nos faz querer cumprir um qualquer sonho que deixámos para traz (mesmo que seja ir para o Space Camp), que nos faz querer alterar a nossa rotina e tentar encontrar sempre o melhor final para cada capítulo que iniciamos.
Stranger Than Fiction joga no limiar no filme de fantasia, sem se perceber nunca se estamos perante um drama, um drama/comédia ou mesmo uma comédia/drama, o próprio Harold a uma certa altura tenta encontrar a resposta para isso mesmo. Trata-se contudo de um daqueles filmes que fica connosco durante bastante tempo, mesmo que o final não seja aquele que tornaria o livro de Karen numa obra-prima, afinal como a própria Karen diz:
“But if a man does know he's about to die and dies anyway. Dies- dies willingly, knowing that he could stop it, then- I mean, isn't that the type of man who you want to keep alive?”
Eu acho que sim.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Inglourious Basterds




War Movie
2009
153 minutos
Quentin Tarantino (realização e guião)


“You know how you get to Carnegie Hall, doncha? Practice.”

Lt. Aldo Raine

Tarantino levou dez anos a escrever o guião de Inglourious Basterds (os dois erros ortográficos são propositados, também sendo propositada a não clarificação por parte do realizador de tal facto: "Here's the thing. I'm never going to explain that"), um projecto que o seduziu há alguns anos, um filme de guerra que conjugasse também o buddy movie. Contudo, se alguém esperaria algo do género The Dirty Dozen (1967) de Robert Aldrich, este filme é muito mais.
Muito ao estilo de Tarantino, várias histórias (talvez fosse mais correcto o termo estórias) entrecruzam os seus caminhos, numa estruturante história central, a própria História Mundial. Um grupo de soldados judeus liderados por um distinto Aldo Raine (Brad Pitt); um oficial alemão caçador de judeus, Hans Lada (Christoph Waltz, que carrega, muito do filme); uma actriz famosa que colabora com os aliados como espiã, Bridget von Hammersmark (Diane Kruger); uma dona de um cinema francês que esconde o seu passado como judia, Shosanna (Mélanie Laurent); e ainda um herói de guerra responsável pela morte de centenas de aliados, Fredrik Zoller (Daniel Brühl). Tarantino consegue interligar todas as histórias precipitando-as para um acontecimento comum, uma estreia cinematográfica da nova produção de propaganda alemã proveniente da UFA. De referir também a presença do realizador Eli Roth no elenco desempenhando o papel do temível Bear Jew, Rith realiza também o filme dentro do filme, o périplo do soldado Zoller, Nation’s Pride.
Só mesmo um realizador cinéfilo como Quentin Tarantino seria capaz de ligar de forma tão destacada o cinema ao destino do mundo e a uma nova história mundial, como que mostrando que o cinema pode ser solução para várias situações, entre as quais a queda de um ditador. A referência cinematográfica ao cinema de propaganda (o filem sobre os feitos de Zoller), assim como a um cinema de atracções, um cinema de choque (o filme que Shosanna exige, precipitando o destino dos presentes na sala), procuram centrar as atenções naquela que é chamada de sétima arte, um veículo que serviu vários intentos e que aqui materializa toda a sua força no alterar dos destinos da Humanidade.
Além das personagens riquíssimas, do diálogo detalhado e das histórias paralelas, a banda sonora volta a ser riquíssima, o que também já é uma imagem de marca do realizador americano.
Se considerarmos Inglourious Basterds apenas e só um filme de guerra, vamos ficar decepcionados pela ausência de grandes sequências de acção. Aqui o foco central acaba por ser mesmo o cinema, um herói silencioso que desempenha sempre um papel importante na estruturação de momentos distintos ao longo dos tempos, e que recebe agora o seu merecido reconhecimento.
Lendo o guião é notória a flata de algumas cenas que em tudo iriam enriquecer o filme, restanos esperar que tenham sido cenas cortadas que possam aparecer numa futura versão em DVD.

Sunshine Cleaning



Dramedies (chamemos-lhe assim por ser Drama com laivos de comédia)
2008
91 minutos
Christine Jeffs
Megan Holley (guião)

"I recommend the pecan pie"
Waitress

Pouco tempo depois do primeiro filme, aqui vai nova contribuição. Ao ler a sinopse pareceu-me um filme interessante e avancei para o seu visionamento, não me arrependi em nada.
Christine Jeffs realiza este Sunshine Cleaning de 2008, um daqueles filmes que cria a sua própria sorte, isto é, um daqueles filmes indie que se torna um fenómeno de popularidade pela forma como chega às pessoas. Quer pelo estilo, quer pela própria presença de Alan Arkin novamente no papel de avô, as pontes entre este filme e Little Miss Sunshine (2006) de Jonathan Dayton e Vlerie Faris são inevitáveis. São o tipo de filmes que tem atraído o público de Sundance, destacando-se pela simplicidade da história e pela forma impressionante e descomprometida como aliam o drama, não com a comédia, mas com elementos cómicos.
Aqui, duas irmãs, Rose (Amy Adams) e Norah (Emily Blunt), decidem enveredar pelo negócio da limpeza de cenas de crime, enquanto Rose tem de lidar com o seu filho Oscar (Jason Spevack) “problemático”, ou melhor, enigmático; com um amante que nunca deixará a mulher e com um pai à procura de uma grande oportunidade de negócio. De referir também a presença de Clifton Collins Jr., Steve Zahn e Mary Lynn Rajskub no elenco.
As diferentes e carismáticas personagens que pautam a narrativa são sem dúvida o ponto de maior destaque em Sunshine Cleaning, não só por serem multifacetadas e todas de grande profundidade e complexidade, mas por em todas elas ser notório que há algo de crooked, algo de “errado” que lhes confere ainda mais cor.
A história não se preocupa em atar todas as pontas soltas, nem em encontrar uma fórmula de felicidade, apenas segue o rumo natural de personagens à procura de pequenas coisas, de pequenos acomplishments que lhes permitam seguir o seu caminho.
Realce para a magnífica realização na cena de ‘trestling’, com uma música fantástica onde através de montagem simultânea ficamos a saber o que aconteceu à mãe das duas irmãs, enquanto Norah se extingue dos seus defeitos, num momento de catarse em que volta a ser criança, em que volta a chorar, em que volta a sentir, enquanto o comboio passa sobre a ponte; ao mesmo tempo que a voz de Óscar ecoa com perguntas directas a um céu que desconhece: “can you see everything down here?”.
Rose e Norah retomam as suas vidas onde as outras pessoas abandonam as delas, apesar de não relembrarem a mãe, despedem-se dela pela primeira vez ao vê-la na televisão, sorridente e bela, como uma mãe se parece sempre aos olhos dos seus filhos.
Um filme que não se perde nos confins da emotividade, mas que não deixa de piscar o olho ao nosso lado mais sensível, sem se comprometer com o tradicional happy ending, mas com um cada vez mais habitual hope ending.



domingo, 4 de outubro de 2009

Tupac: Resurrection




Documentário
2003
112 minutos
Lauren Lazin

"I'm not saying that I'm gonna change the world, but I guarantee that I will spark the brain that will"

Tupac Amaru Shakur

Este será o primeiro filme analisado pelo "A Minha Cinefilia". O motivo que levou a esta escolha é bastante simples, foi o último filme que vi, ontem de madrugada para ser mais exacto.
Data já de 2003 este filme realizado por Lauren Lazin que esteve nomeado para o Oscar na categoria de melhor documentário acabando por perder para Born Into Brothels: Calcuta's Red Light Kids de Zana Briski e Ross Kauffman.
O filme de Lazin segue o percurso turbulento do rapper Tupac Shakur, desde a infância entre Nova Iorque e Baltimore, filho de uma activista dos Black Panther que cedo lhe incutiu os valores que mais tarde se iriam reflectir em muito do seu trabalho. Tupac foi uma das principais figuras (ou mesmo a principal) no aparecimento do chamado Gangsta Rap, com as suas letras explicitas e agressivas, que reflectiam o clima de instabilidade e mudança que se afigurava na costa Oeste dos Estados Unidos, promovendo o que o rapper denominava de Thug Life.
O filme segue uma tónica bem reconhecida de os documentários/biopics, ao seguir os passos de Tupac desde a infância até ao fatídico dia 13 de Setembro de 1996 quando acabou por falecer depois de ter sido baleado (foi baleado a 7 de Setembro). Aqui é o próprio Tupac quem conta a sua história, na primeira pessoa, sem rodeios nem subterfúgios analisando todos os passos que deu; desde as escolhas acertadas (sucesso na música e no cinema), passando por todos os erros que cometeu (tráfico de droga na adolescência, acusações diversas e penas de prisão, passando pelo conflito com Notorious B.I.G., entre outros). O facto de sermos apresentados a Tupac pelo próprio Tupac aproxima-nos do sujeito tratado, tornando o filme muito mais intimista e pessoal. A utilização de entrevistas e imagens de arquivo ajudam a compôr melhor a personalidade desta personagem que ainda hoje é olhado como o melhor rapper de sempre. O resurrection presente no título não pretende alimentar as teorias de que o rapper simulou a própria morte, prende-se indubitavelmente com a viagem aos infernos e o seu ressurgimento enquanto um novo homem, um homem que procurava ser melhor do que tinha vindo a ser até então. Há claramente um Tupac antes de ser preso e outro depois de ter estado na prisão, assim como poderemos considerar que o Tupac que sobreviveu a uma tentativa de assassinato (foi baleado cinco vezes) era um homem diferente.
O documentário não pretende o endeusamento de Tupac, cada um olhará para a sua vida e para a sua obra da maneira que entender, mas o seu legado é inquestionável. Na parte final do filme, Lazin é exímia a mostrar-nos isso mesmo, ao mostrar-nos como um simples jovem de Harlem conseguiu chegar a pessoas de todo o mundo.
Um filme documental com uma personagem bigger than life que sabia estar talhado para a imortalidade, como o próprio dizia "tha´'s just the way it is". Tupac faleceu em 1996, tinha 25 anos.