sábado, 27 de fevereiro de 2010

Alive Day Memories: Home from Iraq



2007
Documentário
57 minutos
Jon Alpert & Ellen Goosenberg Kent


Em pouco menos de uma hora é nos mostrado as consequências da guerra no Iraque, na sociedade Americana. Um conjunto de dez entrevistas levadas a cabo pelo conhecido James Gandolfini – desempenha também o papel de produtor executivo – tendo como entrevistados jovens amputados, vítimas de engenhos explosivos.
Não tenta, de todo, ser uma peça de propaganda, nem procura escolher lados, procura sim, mostrar as consequências reais de actos políticos, sobre aqueles que são os reais intervenientes, sacrificados em nome de valores duvidosos. A sociedade americana tende a procurar o lado bom, sendo a data dos ferimentos dos soldados tratada como uma celebração da vida, o Alive Day. Contudo, como refere a certa altura um dos entrevistados, o ser obrigado a relembrar todos os anos o pior dia da vida, é tudo menos um motivo de orgulho e celebração. A ambiguidade de sentimentos em relação à existência actual, assim como a dificuldade em lidar com uma realidade devastadora é marcadamente notória nas palavras, lágrimas, angústias e nas faces repletas de olhares vazios destes veteranos de guerra.
A real batalha começa depois dos ferimentos, quando nada mais voltará a ser o que era. As imagens de arquivos pessoais vão sendo entremeadas com imagens pungentes do conflito armado, que nos remetem para a brutalidade dos actos e para a consequência das acções, realçando a precariedade da vida e da condição humana. A guerra do Iraque é a guerra que tem o maior número de amputados a regressarem a casa, superior mesmo ao número de amputados da Guerra Civil Americana.
Um olhar trágico e comovente não sobre a guerra em si, mas sobre as diferentes guerras que nascem desse conflito. Uma pena ser uma obra feita para tv, já que merecia, não só o destaque, mas os meios de uma obra cinematográfica.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Choke



2008
Comédia/Drama
92 minutos
Clark Gregg (realização e guião)


“We are not born equal sinners, or perfect knock-offs of God. The world tells us whether we're heroes or victims. But, we can decide for ourselves.”
Victor Mancini


O cinema é das poucas artes abertas a todos os tipos de comentários, interpretações e julgamentos; é também das poucas artes que se vê comparada, directamente, com o material que a inspira, isto é, um filme que seja inspirado por um livro, será invariavelmente comparado a esse mesmo livro. Já um quadro que seja inspirado por um livro (só inspirados na Bíblia, há incontáveis obras) nunca sofre esse processo de comparação e confrontação entre a obra final e o material que a inspirou/baseou.
Choke faz parte da vasta obra literária de Chuck Palahniuk - autor de vários livros, entre os quais Fight Club, Lullaby, Diary, entre outros – o que logo à partida acaba por ser um medidor injusto para com o Choke de Clark Gregg. Não esperem uma cópia do livro, nem esperem outro Fight Club (2009), Choke (o filme) vale por si próprio e deve ser visto por si próprio.
Victor (Sam Rockwell) desistiu de medicina para poder ter a mãe doente de Alzheimer num lar/instituição; trabalha num parque temático, onde são recriados os tempos coloniais; percorre os grupos de viciados em sexo para satisfazer a sua adição sexual, ao mesmo tempo que deambula pela vida sem saber o seu rumo, desencantado com o que o rodeia, incapaz de ser feliz. Como esquema para conseguir dinheiro, engasga-se em comida em restaurantes públicos, de forma a ser salvo por pessoas a quem vai pedindo dinheiro.
Este último ponto, que dá nome ao filme, é sem dúvida o que passa de forma menos conseguida. Victor usa o seu esquema de forma perfeita, conseguindo os seus intentos, mas também dando a quem o salva uma nova juventude, um sentido de que é especial e responsável pela vida de outrem, Victor fornece a quem o salva os sentimentos que não consegue atingir, nem pela satisfação carnal. É uma metáfora, assim como uma sátira para a própria vida de Victor, que acaba por se ver incapaz de digerir as situações que o fazem ser como são.
O filme é bem equilibrado, estando a narrativa construída com recurso a diversos flashbacks que contextualizam o percurso de Victor e da sua mãe, o equilíbrio entre o drama e a comédia e feito de forma hábil, estando Rockwell no seu epicentro, dominando a película com a sua capacidade de representação. Angelica Huston desempenha a mãe de Victor, incapaz de ser mãe que um rapaz precisava, incapaz de o soltar quando ele precisou, acaba por ser a causa da vivência espectral de Victor, que parece apenas vaguear pela vida, sem a conseguir enfrentar. Os sentimentos que desenvolve por Paige (Kelly Macdonald) dão-lhe o desconforto necessário para se aperceber da letargia em que se encontra, assegurando-lhe que a não é um caso isolado.
Conhecendo o livro, fico com a ideia que a história tinha muito mais por onde pegar, vários meandros por onde poderia desenvolver-se, no entanto, vou tentar ficar por aqui, para não incorrer no tal erro da comparação.


Curiosidade imdb: O homem sentado ao lado de Victor no avião, na cena final, é Chuck Palahniuk o autor do livro.

Adventureland



2009
Drama/Comédia
107 minutos
Gregg Mottola (realização e guião)


“I am amazed at how tiny my paycheck is.”

James Brennan


Embora o trailer o passa transmitir, mesmo que Gregg Mottola seja o realizador de Superbad (2007), esta não é uma comédia pura e dura. Adventureland é um daqueles comming of age pictures, onde o desequilíbrio entre gerações é bastante acentuado, seguindo os adolescentes dos anos 80 ao longo de um Verão que os transforma, diverte, separa e faz crescer.
James (Jesse Eisenberg) procura juntar dinheiro para uma pós-graduação em Nova Iorque, aceitando trabalhar no parque de diversões local. O parque pode ser visto como uma prisão sazonal, onde os miúdos locais acabam todos por cumprir pena. Aí conhecerá Em (Kristen Stewart) por quem se apaixona, com todos os condimentos essenciais.
Sendo os 80’s uma década marcadamente icónica quer a níveis estilísticos, quer a níveis musicais, aqui a banda sonora é de realçar, indo desde Lou Reed a The Cure, mas moldando-se à acção de forma hábil, veiculando os sentimentos, estados de espírito e medos dos intervenientes.
Um filme sobre ritos de passagem, onde apesar do meio que os rodeia, cada personagem consegue existir por si mesma, preservando a sua individualidade, ao ponto de não desistir dos seus sonhos.
Mottola mostra assim versatilidade ao lidar com teen comedies, ao conseguir afastar-se inteligentemente da fórmula de Superbad, mesmo que tratando de assuntos em tudo similares. A diversão procurada em Superbad, é aqui o factor dominante, aquilo a que os jovens querem escapar, um beco sem saída para uma geração que por muitos era vista como um enorme vazio.
Podemos tentar ser o melhor entre os mais fracos – como o é a personagem de Connell (Ryan Reynolds) – ou tentar ser algo mais, nem que para isso sejamos o pior entre os mais fortes. Basta não nos acomodarmos, algo que James procura desde o início.


Curiosidade imdb: Em toca 55 vezes no cabelo ao longo do filme.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Blue Velvet



1986
Thriller
120 minutos
David Lynch (realização e guião)

"See that clock on the wall? In five minutes you are not going to believe what I've told you."

Jeffrey Beaumont

A obra de David Lynch é marcadamente peculiar, não só pela elevada presença de elementos causadores/criadores de estranheza, mas por ser o reflexo da uma ideologia muito fixa no que respeita aos conceitos de criação do seu autor. David Lynch é um realizador que nos habituou a filmes intrincados, onde a barreira entre o genial e o risível consegue ser bastante ténue, acabando por se apreciar claramente, ou se odiar de forma acérrima.
Blue Velvet é sem dúvida uma das grandes obras do realizador americano. O filme segue Jeffrey (Kyle MacLachlan) que de visita à sua cidade natal descobre uma orelha humana num terreno descampado. Este é o despoletar de uma procura incessante por parte do jovem de forma a conseguir juntar todas as peças de um enigma que se adensa e complica, à medida que Jeffrey se envolve cada vez mais em meandros sombrios de uma realidade paralela, que subsiste a par com a perfeição e harmonia de uma simples, e tradicional cidade americana. Sandy (Laura Dern) representa o tradicionalismo, a girl next door que todos procuram, a rapariga de bons costumes e bons valores; já Dorothy (Isabella Rossellini) representa o desejo e as pulsões sexuais, uma mulher fatal que se vê subjugada por um vil e sádico Frank Booth (um excelente Dennis Hopper), um personagem fortemente marcado por um desejo ímpio incontrolável por Dorothy, que o seduz, ao mesmo tempo que o atormenta constantemente. E claro, a música, uma constante ao longo do filme, que nos acompanha e assombra de forma declaradamente intencional.
A mestria na criação das personagens e na interacção constante entre elas é de tal forma bem conseguida, que o plot do filme passa rapidamente para segundo plano, a orelha pertence realmente a quem? Os planos inicias repetem-se no final do filme, remetendo para o fechar de um círculo, um retomar da ordem habitual, numa cidade de Lumberton que parece ter passado ao lado de tudo. O confronto entre os acontecimentos e o cenário em que se desenrolam é um dos elementos de maior impacte no filme de Lynch, recriando um ambiente noir, com laivos de horror, thriller e mesmo de comédia, contrabalançados com um universo idílico de uma sociedade americana comum, ou melhor, vulgar.
Uma história bastante straight forward, mas claramente inquietante, onde David Lynch “brinca” com as expectativas do público de forma magistral.


Curiosidade imdb: Originalmente, Lynch queria que Frank inalasse hélio.

Marley & Me



2008
Comédia/Drama
120 minutos
David Frankel (realização)
Scott Frank & Don Ross (guião)


"A dog doesn't care if you're rich or poor, educated or illiterate, clever or dull. Give him your heart and he will give you his."

John Grogan


Ao ver um casal de A-listers como Owen Wilson e Jennifer Anniston, presumi que se trataria de uma das muitas, e habituais comédias românticas que todos os anos chegam de Hollywood, onde o decorrer dos acontecimentos é mais que presumível, além do mais que óbvio happy ending é, não só uma certeza, mas uma obrigação. Não podia estar mais enganado.
Marley & Me é a adaptação de um livro de John Grogan, que se tornou num best-seller internacional, onde os acontecimentos de Grogan e Marley (o pior cão do mundo) são narrados de forma autêntica e terna. David Frankel realiza assim um filme que acompanha a vida do casal Grogan, acompanhando todos os momentos mais importantes da sua vida em comum, desde as crises, a ambição por algo mais que o cómodo, dando enfoque à estrela do filme, Marley. Embora lhe chame estrela, Marley surge mesmo como o elo de ligação para uma longa odisseia que é a vida a dois. O cão representa a não acomodação, a força interior que todos temos e pensamos ser correcto silenciá-la à medida que vamos crescendo. Ao longo de todo o filme, Marley é a única constante que permanece inalterável e fiel a si próprio


John Grogan e o Marley real.

A comédia é bem balanceada com os momentos mais tensos, sendo o final emocionante e devastador, mas contudo, bastante catártico, já que o filme é uma celebração da vida, sendo a morte a única etapa que temos como certa.
É um filme bem longe das comédias românticas com o qual o confundi injustamente, trata-se de um filme para toda a família, com a promessa de fazer lacrimejar até os mais insensíveis, isto é, pessoas que nunca tiveram um cão (como é o meu caso).


*A partir deste momento irei acrescentar a "Curiosidade imdb" aos posts que for adicionando. É uma forma de saber algo mais sobre os filmes tratados, informação que se encontra na secção trivia no site imdb.com. Meras curiosidades que servem, mais não seja, para impressionar os amigos.

Curiosidade imdb: No filme foram utilizados 22 cães para representarem Marley.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

The Invention of Lying



2009
Comédia
99 minutos
Ricky Gervais & Matthew Robinson (realização e guião)


“Man In The Sky forbid!”

Anna’s Mother


Ricky Gervais tem ganho o seu papel de destaque no panorama da comédia, tendo dominado o Reino Unido e conseguido alastrar o seu sucesso a grande parte do mundo (basta ver os remakes da série The Office), arriscou com The Invention of Lying a sua estreia na realização de longas-metragens, e logo no universo de Hollywood. Trata-se de uma parceria com Matthew Robinson, um jovem também a dar os primeiros passos, o que demonstra a pouca segurança de Gervais perante esta nova realidade, permitindo-lhe contudo, a liberdade suficiente para ser ele o grande nome do cartaz.
Gervais desempenha o papel de Mark Bellison, um homem simples, sem grandes perspectivas de futuro, prestes a ser despedido do seu trabalho como guionista/historiador. Bellison será o primeiro homem a proferir uma mentira, num mundo onde mentir é algo não só desconhecido, mas também inexistente. Embora os personagens não conheçam a mentira, o que salta à vista e que cada pessoa é honesta a 100%, mesmo num mundo sem mentira, a reserva e o bom-senso podem existir. Assim, as mentiras de Bellison serão sempre assumidas como verdades, sendo elevado ao estatuto de iluminado, aquando a “descoberta” que este sabe o que acontece depois da morte. Gervais usa subtilmente este momento da narrativa par potenciar uma sátira subtil (ou talvez não assim tanto) direccionada ao panorama religioso, demonstrando como um pequeno acontecimento pode ser potenciado a uma escala inimaginável, revestido de verdades absolutas, ensinamentos fidedignos e doutrinas inquestionáveis.
Podemos ficar um pouco à espera de algo mais, o número de gags possíveis é de tal forma interminável, que facilmente se poderia tornar numa qualquer comédia de Jim Carrey e não num filme de Ricky Gervais; algo que o britânico consegue controlar de forma astuta, muito embora a história acabe por tender sempre para o universo da comédia romântica, quando podia ser apenas divertimento despudorado e descomprometido.
Gervais abre a porta da realização para a América e promete não ficar por aqui. Esperamos que consiga imprimir o mesmo ritmo e o mesmo cunho pessoal nos projectos futuros, algo que aqui ainda não é bem notório.
Nota final para a quantidade de caras bem conhecidas que marcam presença em The Invention of Lying, desde papéis secundários a pequenos cameos, é um rol de talento difícil de igualar (Jennifer Garner, Tina Fey, Jeffrey Tambor, Jonah Hill, Louis C.K., Rob Lowe, Jason Bateman, Edward Norton, Philip Seymour Hoffman, e claro Stephen Merchant).